segunda-feira, 15 de julho de 2013

A mídia em três atos


O que talvez tenha ficado provado para aqueles que participaram das manifestações é o papel que a mídia tem na formulação do discurso oficial, a despeito do que se comumente pensa. O discurso oficial não deve ser entendido como o discurso do governo, como o senso comum acredita e a mídia promove, mas sim uma síntese de interesses particulares e divergentes daqueles que possuem os mecanismos sociais de formulação do discurso, os quais possibilitam transmiti-lo como verdade única.
Assim, o discurso oficial contempla divergências pontuais, mas abriga, sem dirimir contradições entre as frações de interesse, um discurso interessado que contempla a todos que compõem o poder político-econômico. Após ser transmitido pelos meios socialmente construídos e legitimados como espaços de divulgação, o discurso interpretativo e interessado dos fatos transforma-se em discurso isento. Nesse sentido pode ser entendida a atuação dos meios de comunicação na cobertura das manifestações, sobretudo a do Movimento Passe-Livre (MPL).
Podemos dividir a cobertura da grande mídia em antes das manifestações legitimadas pelos meios de comunicação, durante as manifestações e depois das manifestações, pois nesses momentos encontram-se discursos diferentes que foram se metamorfoseando conforme o desenrolar dos fatos.
O primeiro ato foi o que podemos denominar de demonização do movimento. Quando as manifestações iniciaram-se em meados de 2013 – lembrando que foram registradas mobilizações já em 2012, o que ajudou para que o aumento fosse adiado para o meio do ano de 2013 no estado de São Paulo, pelo menos –, a mídia construiu um discurso afinado com os interesses dos empresários do transporte e com os dirigentes políticos. Podemos constatar essa visão nos editoriais da Folha de São Paulo e Estadão antes da fatídica quinta-feira. Vamos ver alguns pontos do editorial de 13 de junho de 2013, intitulado Retomar a Paulista.
   No início deparamo-nos com o que o grupo Folha considera o saldo da manifestação anterior do MPL na Paulista: “Oito policiais militares e um número desconhecido de manifestantes feridos, 87 ônibus danificados, R$ 100 mil de prejuízos em estações de metrô e milhões de paulistanos reféns do trânsito. Eis o saldo do terceiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que se vangloria de parar São Paulo – e chega perto demais de consegui-lo”.
  Claramente o tom é pejorativo, objetivando minorar junto à opinião pública a manifestação e o MPL. Em seguida, o jornal passa a atacar a pauta do MPL, o passe-livre, vinculando-a – o que é um ato cognitivamente imbecil – com a suposta violência dos manifestantes. Diz que a pauta de redução não passa, isto mesmo, não passa de pretexto para os manifestantes serem violentos, buscando apoio entre a massa de desorientados e ingênuos que estão abarrotados em ônibus e trens. Leia atentamente a pérola:

“Sua reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,20 – abaixo da inflação, é útil assinalar – não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados”.

A vinculação é infantil e pressupõe ou tem como meta a infantilização do leitor. Eis o argumento infantil: os manifestantes são naturalmente violentos em nome de uma ideologia ultrapassada e aproveitam-se da revolta dos passageiros para propor o que é inviável. Perceba que, como entinema ou implícito, há o argumento de que os jovens pseudorrevolucionários são de classe média, pois se fosse diferente não se aproveitariam dos usuários, já que seriam usuários. Arnaldo Jabor que o diga. (Acesse o link se você, incrivelmente,  ainda não viu. http://www.youtube.com/watch?v=Su4R8U5OWj0 ). Interessante aqui que, sem explicitar dessa forma (cuidado de editor), imbeciliza o seu público.
Em seguida, ataca a pauta do MPL, taxando-a de “irrealismo” de um “grupelho”. O irrealismo, na visão do grupo econômico midiático, justificaria o ataque a símbolos anticapitalista. Até aqui o editorial criou algumas premissas, as quais servirão de fundamento para um pedido especial, para o qual o texto foi construído: pedir à polícia que resolva.
No parágrafo seguinte, o editorial justifica a ação da polícia, uma vez que a existência de manifestantes encapuzados causam uma reação proporcional do aparato militar: “Os poucos manifestantes que parecem ter algo na cabeça além de capuzes justificam a violência como reação à suposta brutalidade da polícia”. O editorial, contudo, vai além da relação mecânica entre ação – dos manifestantes/vândalos – e reação – Polícia Militar –, afirmando que o convívio democrático pressupõe a imposição de regras e leis básicas, como o direito de ir e vir – ah, o mesmo argumento de sempre, que o pessoal do carro tem direito de andar de carro.
Posto isto, vem o pedido especial: “É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na Avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais”. O editorial do grupelho pede candidamente que a Polícia Militar ponha “ponto final nisso”. O grupelho exigiu que o Estado agisse para acabar com as manifestações, com o argumento espúrio – porque é o de sempre de quem é sempre contrário a manifestações – de que a Avenida Paulista é a artéria da cidade com hospitais ao seu redor.
Para terminar, o grupelho faz a seguinte afirmação: “No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei”. Aqui ela faz uma relação que depois será constantemente utilizada pelos meios de comunicação, que é a utilização do termo vandalismo para justificar a ação da polícia, que viraria, depois da (re)ação destemperada da polícia, princípio de distinção entre o bom manifestante (indivíduo vestido de branco ou com bandeira do Brasil gritando contra a corrupção, que se senta para dedurar os supostos vândalos) e o manifestante ruim (sujeito vestido de vermelho ou com máscara ou capuz que gritava pautas mais específicas, como a tarifa zero). A reação da mídia, sobretudo das organizações Globo, à ação da policia no Rio de Janeiro demonstrou como ela é leniente com a ação policial, como ficou evidenciada na ação policial no centro e no Leblon e o ocorrido no Complexo da Maré, onde as balas não eram de borracha, bordão que ficou conhecido nas redes sociais e em algumas manifestações, o qual não pode ser esquecido jamais, pois exemplifica o que é a polícia e a reação discriminatória que a classe média tem sobre uma realidade supostamente discricionária, na qual para ela tudo tem sentido moralizante.
Esta foi a construção do discurso oficial, síntese entre os interesses dos empresários do transporte (doadores de campanha), políticos e mídia. Os editoriais dos dias que antecederam a ação da Polícia Militar na Paulista objetivaram promover e legitimar a ação policial. Esse expediente é comum na mídia paulistana. Quem não se lembra da desocupação de Pinheirinho, precedida por editorais e reportagens que induziam a criminalização dos ocupantes e dos militantes – atente-se para a similaridade entre militantes “pseudorrevolucionários” e população ingênua nos ônibus e trens, e militantes irresponsáveis do PSTU e moradores ingênuos do Pinheirinho –, e do editorial após a desocupação, intitulado Operação Pinheirinho; ou dos editorais e reportagens sobre a Cracolância em São Paulo e a justificação da ação militar para tratar viciados. O fato é que, historicamente, a ação da mídia paulistana funciona como fomentadora e legitimadora à ação militar em questões sociais. Então, se houve violência “desmedida” da polícia na manifestação seguinte do MPL, atacando sete jornalistas do grupelho folha, é porque o grupelho folha pediu. Se a ação saiu do controle, é outra questão que não estava na contabilidade do grupelho e do Arnaldo Jabor, a verdadeira piada de argentino (Acesse http://www.youtube.com/watch?v=rkQgyxoRU9k ).
O editorial de 15 de junho, intitulado Agente do Caos, já responsabiliza a Policia Militar pela violência, descrevendo repórteres feridos atingidos por balas de borracha, gás de pimenta, gás lacrimogênio e cassetete. Mas há uma coisa que talvez tenha ficada desapercebida. A questão central do editorial não foi a violência policial em si, mas a violência policial contra os jornalistas, como fica claro neste patético trecho: “Há uma razão adicional para a força policial não tomar jornalistas por alvo: o trabalho da imprensa oferece um testemunho expurgado do radicalismo sectário que se impregnou nas manifestações contra o aumento das tarifas”.
Em outras palavras, a análise do editorial anterior não foi suprimida, apenas subestimada diante da veemência da ação policial contra os jornalistas. Ainda o grupelho continuou a abordar uma certa loucura dos manifestantes, um certo “radicalismo sectário” (jornalista deveria saber que etimologicamente radical e sectário são coisas bem distintas) que impossibilita a negociação com quem não é “radical sectário”, como o prefeito e o governador, pessoas sãs que sabem que a tarifa zero é devaneio vil de “pseudorrevolucionários”.
Depois da quinta-feira sangrenta para a classe média, restou a mídia disputar o movimento. As ações anteriores destinaram-se a negar o movimento como um todo, mas agora, em virtude da repercussão da ação militar, o movimento ganhara força. As críticas iniciais não poderiam ser mais usadas como antes. Agora, a mídia tinha que disputar o movimento, como partido político organizado nas ruas. Esse foi um dos momentos mais didáticos de como a mídia organiza-se tomando partido, de forma organizada, a fim de ganhar mentes e corações. Entrou em cena a mídia televisiva. A mídia televisiva passou a focar as pautas que lhe interessavam através da forma mais cabal e indiscutível dos tempos atuais: a imagem. Diz ela que uma imagem vale mais do que mil palavras, e ela fez valer esta sentença.
Quem já participou de manifestação sabe que, ao registrar uma parte da manifestação, você está registrando uma parte das reivindicações, pois mesmo que a reivindicação seja única, há ainda grupos dentro da manifestação que a focam de forma distinta – exatamente por isto a primeira faixa, a que em tese será gravada, é muito importante e costuma ser uma chamada que unifica a todos que participam. Imagine quando a classe média é convidada a sair de seu apartamento. Vestida de branco, preto e verde-amarelo, ela serviu de ótimo modelo de manifestante: nacionalista, antipartidário, antigoverno, empreendedor e anticorrupção – que não quer dizer nada com nada (solicito ao leitor que leia o texto que fiz Tempos sinceros: dramalhão mexicano da classe média ribeirãopretana, em que descrevo como a classe média ribeirãopretana fugiu das manifestações com a focalização da pauta e a explicitação da corrupção municipal, cuja fonte ela bebe).
O manifestante Policarpo Quaresma passou a ser o modelo de bom manifestante. O manifestante pautado, com reivindicações precisas, passou a ser tratado como manifestante ruim, vinculado à baderna e ao vandalismo, dois termos que passaram a ser martelados em qualquer noticiário, o qual se apressava em classificar a manifestação de pacífica e, quando ocorria algum confronto, apressava-se em “descrever” que um grupo pequeno de não manifestantes, de saqueadores, baderneiros e vândalos confrontou a polícia sem motivação aparente. Esses termos foram tão martelados que até mesmo prefeitos e governadores que deveriam tratar das pautas tratassem apenas de saudar os bons manifestantes, bons para a democracia, e recriminar os manifestantes ruins quando emitiam notas oficiais. Mas e a pauta, os dirigentes não a tratavam nas notas e nas poucas entrevistas? Não! Não era necessário, o manifestante bom não queria saber disto, as empresas e os dirigentes políticos também não, e a mídia muito menos.
Esta é o segundo ato do movimento, a disputa. A mídia disputou abertamente como partido político organizado. A disputa também passou pela transformação das pautas específicas em pautas genéricas federais, o que, de certa forma, procurou matar dois coelhos com uma bala de borracha. O primeiro consiste nos interesses corporativos da mídia – e o nacionalismo teve grande papel nisto. Há um bom tempo ela procurava formas de diminuir a aprovação ao governo federal nas pesquisas. Ela, há tempos, vem demonstrando que necessita de um candidato à altura para aumentar sua capacidade de negociação – como parece ficar mais ou menos claro com a denúncia descoberta da sonegação fiscal da Globo. Veja, não estou falando da Dilma não vencer porque eles querem a todo custo outro candidato; estou falando da candidata necessitar bater à porta dos meios de comunicação, o que bem é diferente.  Se será ela ou não tanto faz, o que importa é o poder de barganha, seja de pautas, como a não regulamentação da mídia, seja de favores, como o esquecimento e o segredo militar de problemas com o fisco. E convenhamos, Aécio Neves e Eduardo Campos não decolam nem com Apollo. Só decolarão com influência externa, ou ajudinha amiga.
Segundo, ao transformar pautas municipais, estaduais e federal em pautas exclusivamente pertencentes à esfera federal resultará, com o tempo, no fim das manifestações e na retomada do controle sobre a opinião. Ao pulverizar as manifestações com a transformação das pautas em pautas exclusivas à esfera federal, as soluções que poderiam ser alcançadas por movimentos organizados – e nisto o antipartidiarismo é fundamental – naufragam, uma vez que algumas soluções só podem ser conquistadas com certa municipalização e estadualização das pautas, sem esquecer, obviamente, a importância da União e do Congresso Nacional.
O segundo ato tem a marca da despolitização. Mas houve contradições, como qualquer movimento. Foi impressionante ver a ojeriza de muitos manifestantes, e não somente dos organizados, com os meios de comunicação. A necessidade dos repórteres da Globo de cobrir as manifestações em helicópteros e sacadas de prédios e de utilizar repórteres jovens meio barbudinhos sem identificação, alegando que estavam ali para fazer documentários, foi a consequência impactante para os meios de comunicação da repulsa sobre suas práticas ao longo das décadas. Mas a disputa que a mídia encampou demonstra que as redes sociais não substituíram os meios de comunicação na formulação da opinião.
Por fim vem o terceiro ato, que é o de achincalhamento. O discurso oficial agora visa poupar lideranças regionais, onde a mídia estabelece negócios vultosos (veja o quanto as empresas de comunicação lucram com contratos com municípios e estados, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro, ou relações duvidosas, como a da Família Huck com a Famílias Cabral e Barata), e achincalhar representantes da esfera federal, tocando em uma suposta falta de compreensão destes sobre as reais necessidades dos manifestantes. Ai vem a tentativa de síntese e de reconquistar o terreno perdido no primeiro e segundo atos. Para fazer essa afirmação, significa que quem a faz sabe as reais necessidades dos manifestantes, caso contrário não poderia fazê-la. Você somente sabe o que o outro não sabe se você sabe – quase uma Aporia de Menon, não?
Vem agora uma tentativa desavergonhada de colocar na vala do esquecimento o processo no qual a mídia trilhou, a saber, a de criminalizar os movimentos sociais e partidos políticos, tratá-los a partir da antinomia realidade-sanidade/irrealidade-loucura, ao mesmo tempo em que foi alvo de protestos por todo o Brasil e expulsa de manifestações por manifestantes não organizados. Objetiva-se inculcar um discurso que possibilite a negociação maior como a esfera federal e que a recoloque como portadora da verdade.
Para exemplificar esse processo, descrevo um pseudodebate que vi, mas que, por ser tão caricatural, demonstra didaticamente as nuanças do discurso oficial e o seu real objetivo. Vi o programa do Jô Soares, um pseudointelectual. Nesse programa havia um quadro chamado Meninas do Jô. Esse quadro era composto por quatro jornalistas mulheres do circuito mainstream. Em todo o debate, a única coisa que ouvi foi a afirmação de que os governos, sobretudo o federal, não entenderam as reclamações da população (sim, deixaram de ser necessidades e viraram reclamações. Consumista não?!), e o plebiscito foi um dos sintomas desse desentendimento – interessante que pesquisas demonstravam que a população era ou é amplamente favorável ao plebiscito, enquanto claramente os meios de comunicação e o congresso eram e são contrários.
Em determinado momento do acaloradíssimo debate com as “meninas”, o apresentador puxassaco da carcomida e inútil ABL emitiu a seguinte estupidez:

- Alguém pode me explicar o slogan do governo federal, País rico é país sem miséria? Não brinca, pensei que não soubesse (risos).

Aqui ocorre o que os especialistas em meios de comunicação chamam de idiotização ou infantilização da informação, na qual ela á transmitida de forma tão natural e estúpida que parece lógica e óbvia para todos. Talvez esse senhor não saiba porque atualmente não tenha oportunidade de ver o óbvio para além do vidro fume do seu carro, ou sua visão não alcance nada além do muro do condomínio que o cerca. Primeiro, existe uma frase muito famosa que talvez tenha esquecido, o que é um absurdo sobretudo para quem se vangloria nas suas contações de história de ter “escondido e ajudado” comunistas na ditadura: “É preciso primeiro fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”, frase do aluno USP padrão Delfim Neto. O que há implícito nessa frase aparentemente lógica, como a sentença estúpida proferida no falso debate? Que, antes de pensar em divisão, é preciso esperar crescer, senão não crescerá. Óbvio, qualquer criança entende isto. Portanto, é possível existir riqueza ao lado de pobreza, porque PIB é uma coisa e distribuição de renda e riqueza é outra coisa, nesta visão.
Na época dessa frase milagrosa Roberto Campos borboletava nos palácios e nos holofotes da Globo com sua metáfora cristã do Estado Jardineiro, cujo sentido é o mesmo dado por Froebel para Jardim de Infância. O que restava então à população, à classe trabalhadora, era simplesmente ficar a contemplar o bolo crescer através do vidro fumê do forno, como um cachorro. Lembremos que essa frase fora forjada para justificar o arrocho salarial e a tendência histórica de perda real de salário verificada nas décadas de 1970, 1980 e 1990, assim como o poder de compra de insumos básicos do trabalhador, o que ajuda a explicar, inclusive, o love que parte da sociedade tem com o Lula, reconhecendo-o como o timoneiro que reconduziu a carne vermelha em seus pratos e expurgou o frango e o ovo. Difícil entender?
Segundo, mesmo com a falência conceitual deste tipo de pensamento, ele ainda fundamenta boa parte do pensamento econômico hegemônico, no qual a riqueza de um país é medida exclusivamente pelo PIB. Esse pensamento baliza qualquer formulação de negócio neste mundo de capital mundializado. Já viu alguma empresa petrolífera exigir IDH alto à Nigéria para obter autorização para extrair petróleo de sua costa? Já viu a FIFA debater escolarização para escolher países-sedes, ou se o país-sede é uma democracia representativa? Observe as últimas escolhas, África do Sul, Brasil, Rússia e Catar. Já viu os EUA debaterem a introdução de eleições livres na Arábia Saudita? Não, é business, o que importa é o dinheiro, não interessa muito como se o prospecta, se através de invasões e expulsões de casa – chamadas sutilmente de remoções para projetos de mobilidade urbana por essas bandas –, ou de assassinatos, ou simplesmente mediante disposições ataráxicas sobre o que ocorre para além do vidro fumê.
Terceiro, o slogan indica que o governo, pelo menos em discurso, discorda de sua utilização política na história brasileira e do pensamento econômico falido que fundamenta a práxis de governos e empresas, inclusive a que esse senhor trabalha. Significa que o governo possui um discurso que se propõe a não deixar o bolo crescer e que discorda das premissas que fundamentam a atuação de empresas e governos ao redor do planeta. Significa que, pelo menos no discurso, opõe-se à baba do cachorro diante do forno. Então, como intelectual autointitulado baba ovo da ABL, poderia ter abordado a contradição cínica do governo de não modificar a política econômica de superávit primário e de pagamento de juros de títulos da dívida pública, que por sinal privilegia ricos como ele; a não taxação das grandes fortunas, que por sinal privilegia ricos como ele; a não realização de auditoria da dívida, que por sinal privilegia ricos como ele; e a falta de cobrança de fisco de grandes empresas, como a empresa que este senhor deve ao fisco (por que não faz uma piada?). Poderia inclusive argumentar que não há possibilidade de acabar com a pobreza se não houver uma política de Estado radical – sim, radical – para saneamento básico, exemplificando com a recusa recente do governo federal de aceitar a visita de observadores da ONU para avaliar a política nacional de saneamento básico, impedindo-os de entrar no país. Aí, quem sabe, poderia transformar-se em intelectual decente, que se propõe a debater todas as coisas em suas raízes, com radicalismo (sim, radicalismo consiste em ir à raiz dos problemas, não às folhas), deixando de lado as filigranas linguísticas e explicitando a contradição entre o discurso por trás do slogan – se bem que nem o slogan conseguiu entender, pois o contrário significaria que possui má-fé – e a prática do governo.
O discurso proferido, portanto, faz parte do discurso ideológico forjado hoje pela mídia sobre os protestos, pois objetiva disputar uma interpretação sobre o movimento, excetuando as críticas do movimento a ela, (re)conduzindo-a em produtora isenta de interpretação sobre a realidade. Talvez a criminalização tímida com o 11 de julho tenha sido um ponto de inflexão importante no discurso. Esse processo, neste caso, dá-se pelo idiotismo e infantilismo. A idiotização é uma das formas manifestas dos meios de comunicação de “adaptar” a população a uma posição escancaradamente conservadora. Esta é a fase na qual estamos. Só se lhe confronta com a explicitação de seus condicionantes e a formação de discursos contra-hegemônicos e alternativos que fazem a disputa política contra esses verdadeiros partidos. Para isso, qualquer apreciação que se paute em ideias como isenção e ausência de regulamentação dos meios de comunicação mostra-se ingênua, mais ou menos como o grupo Folha e os meios de comunicação pressupõem a população encaixotada nos ônibus, trens e metrô que não conseguem cotidianamente exercer o seu direito de ir e vir.



L. F. S.

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