Moro
no Brasil. Mas, infelizmente, não sou brasileiro. Por acidente nuclear, como o
de Chernobil ou Fukushima, nasci em outro país. Este país chama-se Leblon. Para
piorar o acidente, sou negro. Se é difícil encontrar negros em cursos de
Medicina, imagine negros nascidos no Leblon, na Avenida Visconde de Albuquerque?
Fui
extraditado para fora de Leblon, para lugares que não se assemelham em nada com
o país paradisíaco formado por areia, cachorrinhos de madames e pequena boemia
de velhos. Fui extraditado muito cedo, aos dois ou três anos de idade. Cheguei a
Ribeirão Preto em meio às miríadas dos cruzeiros ou cruzados ou cruzados novos
do Proálcool. Doce ilusão da Califórnia Brasileira. Descobrimos cedo que os
cruzeiros ou cruzados ou cruzados novos pertenciam à pequeníssima parcela da
sociedade ribeirãopretana. O grosso vivia de garapão, resto do álcool que fica
no asfalto. Descobri um país diferente daquele que nunca tive lembranças, um
país sem o chapéu panamá, o chinelinho da informalidade formal e a bebidinha de
fim de tarde com alguma Helena.
Concomitante à descoberta de um país diferente, perdi, como
bom extraditado, o contato com a parcela de minha família que ficou em Rio de
Janeiro, lugar unidimensional pertencente ao Brasil que faz fronteira com
Leblon. Rio de Janeiro sofre do mesmo problema de Bolívia: não faz fronteira
com o mar, perdeu-a na Guerra do Pacífico. Talvez se ressinta como um bom
nacionalista boliviano ressinta-se do Chile ou um bom nacionalista paraguaio
com a Tríplice Aliança.
Por
outro cataclismo, redescobri recentemente parte da minha família.
Reencontramo-nos neste ano, cujo encontro ocorreu no final de uma viagem longa
de férias de janeiro, as quais já estavam, por incrível coincidência, agendadas
e pagas. Iniciamos, minha companheira e eu, nossa viagem em São Paulo, cidade
que gosto muito, fomos para Parati, e terminamos em Rio de Janeiro.
Quando
chegamos a Rio de Janeiro, fomos recepcionados por parte da minha família e
levados para Ipanema, onde ficamos. Uma placa na frente da pousada dizia que
aquela residência havia pertencido a Tom Jobim. Não ficamos em Rio de Janeiro.
Deixamos
nossas malas e fomos ver parte da minha família fluminense. Iniciamos uma
pequena viagem. Passamos por um morro onde, segundo meu pai, originara-se minha
família. O morro, antes denominado morro da Catacumba, virou um parque, hoje chamado
parque da Catacumba. As pessoas que ali moraram haviam sido despejadas.
Senti
um vazio imenso, daquele que não proporciona nenhuma perspectiva e caminho para
rumar, um vazio que não lhe dá direção e sentido às coisas, uma escuridão
perpétua na qual você não tem para onde ir e resolve, mecanicamente, andar
sem rumo, até encontrar um terrão batido onde possa recostar-se sem
possibilidade de descanso. É o que senti o que mais ou menos deve acontecer com
um sujeito depois de um despejo. A impossibilidade de retomar os caminhos que
você sempre caminhou, o caminho para casa, o caminho ao trabalho, o caminho ao
vizinho... É verdade que me coloquei no lugar daqueles que nunca conheci porque
imaginei algum grau distante de parentesco, mas o fato é que me coloquei, sem
saber como até hoje fui parar na Visconde de Albuquerque em um respeitável
apartamento leblonense. Meu pai parou lá primeiro, casou com minha mãe e eu
nasci lá. Mas o restante das pessoas expulsas foi parar em Penha e Cidade de
Deus.
O
governador Negrão de Lima fez uma limpa naquela época, limpou o Morro da
Catacumba e a favela da Praia do Pinto, ambos no Leblon. A favela da Praia do
Pinto, contudo, assumiu contornos terroristas. Ao contrário do Morro da
Catacumba, que pelo menos existia o argumento de impossibilidade de urbanização
– o que, a meu ver, não justifica a expulsão dos moradores, porque, a priori, nenhum morro possui plenas condições
de urbanização, sobretudo naquela época –, a favela da Praia do Pinto era uma
favela-bairro, alvo de tentativas de desapropriação desde a década de 1950.
Contudo, os moradores foram expulsos somente em 1969 através de um incêndio
criminoso que acabou com todas as casas – alguma coincidência com São Paulo sob
gestão Kassab?

E
assim, com fogo e sangue, nasceu um país, um símbolo de prosperidade humana,
uma terra dourada como o Eldorado de Cortez, Leblon. O sangue foi expulso pelo
fogo, e formou uma sociedade linda e limpa.
Bem,
mas gostaria de voltar à viagem depois do morro... parque da Catacumba. No
carro de minha prima, pela primeira vez de todas as vezes que visitei Rio de
Janeiro, sai da Zona Sul. Para onde fui? Fui para a Zona Norte. Sim, sai da
Zona Sul. Cheguei, depois de um bom tempo, a Vicente de Carvalho. Ali conheci o
restante da minha família. Voltamos lá mais vezes, inclusive em outra viagem.
Viciei em ir para a Zona Norte, pegar o metrô, conversar com as pessoas sem ser
vendedor, policial e taxista. Fui chegando à conclusão que no fundo sai da Zona
Sul e adentrei em Rio de Janeiro.
Sempre
cresci com o slogan de cidade maravilhosa na cabeça. Falava-se de Rio de
Janeiro, e vinha à cabeça a tal da cidade maravilhosa. Comecei a perceber que a
cidade maravilhosa também é horrorosa, e não é porque a Zona Norte é feia, como
o leblonense pensa. É porque percebi que a cidade é pensada a partir da Zona
Sul, dentro de um projeto ultraconservador de cidade. Existe a Zona Sul e
existe o resto. Sei que pode parecer uma obviedade para quem sempre morou em
Rio de Janeiro, mas eu cresci em Ribeirão Preto, vou muito a São Paulo, e
acabei aprendendo a pensar a cidade a partir do centro, mais ou menos como
coração e artérias. Pensar o contrário é um absurdo para mim. Obviamente isto
não exclui a mesma relação entre centro e periferia, mas até então tinha a
ideia única de bairros e morros.
Percebi
isto vendo o metrô, ridiculamente composta por uma linha (uma linha ao lado da
outra é ridícula, me desculpe, e por isso que é uma linha só mesmo tendo duas).
Ele é pensado em levar o cliente da zona sul ao centro e encaixotar o
passageiro do centro a zona norte. A diferença de qualidade de estações e a
gambiarra de trilhos – de trem – na zona norte assustam, não por risco iminente
de acidentes, mas por descaramento de distinção de tratamento.
Percebi
também que as pessoas, de modo geral, não amam Rio de Janeiro. Sabe aquele
outro slogan, que todos amam a cidade maravilhosa. Mentira deslavada. As
pessoas que moram em Rio de Janeiro amam a cidade como o paulistano ama a
cidade de São Paulo, por falta de opções. Uma coisa é trabalhar no centro ou na
zona sul em algum escritório, pegar o carro ou algum táxi, ir para casa, pegar
uma prancha de surf e curtir um finalzinho de tarde e pôr do sol ao cheiro de
maconha e regado à cervejinha gelada. Coisa diferente (e desigual) é sair de
alguma obra da zona oeste, pegar ônibus por duas horas, descer em algum ponto
improvisado no meio da rua, disputar uma vaga em uma van, pegá-la na segunda
tentativa, desembarcar e caminhar por vinte minutos até a sua casa. Esse cara
ama Rio de Janeiro por falta de opção ou por propaganda, mais ou menos quando se
tem aquelas competições ridículas de músicas que mais expressam a cidade, como
Sampa e Cidade Maravilhosa, se bem que Sampa é bem diferente do ufanismo
medíocre de Cidade Maravilhosa.
Os
olhares dos fluminenses são tão mecânicos, cansados e distantes quanto os
olhares dos paulistanos encaixotados em trens, ônibus e metrôs. A propaganda da
Cidade Maravilhosa fez algo terrível para o fluminense. Transformou a ideia de
Rio de Janeiro, um lugar ensolarado, lindo e perfeito, em um lugar-comum que
não pertence ao verdadeiro Rio de Janeiro, transformou Rio de Janeiro em outro
país, tipo um Leblon, ignorando a realidade e suas contradições. Portanto, a
ideia de Rio de Janeiro é o Leblon, mas Leblon não pertence a Rio de Janeiro.
Estão apartados desde que Leblon nasceu e indiretamente promoveu, com a
expulsão dos moradores mediante ação estatal, a construção de parte da Zona
Norte e algumas dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro. Leblon
expulsou Rio de Janeiro, ou expulsou o que havia de Rio de Janeiro nele.
Um
dia meu pai e eu visitamos o lugar onde nasci. Começamos a caminhar pelo bairro
e uma coisa me chamou a atenção. A quantidade de militares nos nomes das ruas.
Quase todas as ruas tinham nomes de coronéis, almirantes e brigadeiros. Juro
que pensei que a Rua Baden Powel fosse homenagem ao músico. Percebi que era um
lugar distinto, em todos os sentidos, e comecei a pensar na armadura política e
repressiva que o bairro deve ter criado na ditadura militar. O excesso de
militares por metro quadrado talvez explique a forma com a qual se deu a
expulsão dos moradores das favelas. A armadura autoritária criada ao longo da
história do Leblon talvez ajude a entender a grita contra o que a mídia
leblonense chama de vandalismo e baderna nas últimas manifestações, e ajude a
explicar o temor enorme que sente no momento, talvez comparável aos carros
queimados após o escândalo do processamento de dados na eleição de Brizola. O
fluminense não ama a cidade como o leblonense a ama, porque este a tem na cabeça
nos limites da Epitácio Pessoa. O fluminense sofre com a cidade, em muitos
momentos, a odeia. Isto é admissível sim, pois o fluminense hoje tem em sua
cabeça a cidade real, um país esquecido pela cidade maravilhosa. Hoje o
fluminense sabe que Rio de Janeiro não é Leblon e que Leblon não é Rio de
Janeiro. Não acredita nos slogans simplistas. Entende e distingue as reações desproporcionais
da cúpula de segurança e do governador entre o vandalismo assassino da polícia
no Complexo da Maré e o vandalismo de vidros quebrados de bancos e lojas no
Leblon. Alguém viu alguma reunião de emergência entre governador e cúpula de
segurança após a chacina da Maré? Alguma entrevista coletiva? Sejamos mais
simplistas ainda e comparemos vidro com vidro já que para alguns o vidro do Leblon é mais importante do que a vida de um favelado: alguém viu o desespero atual do
governo, polícia, ministério público e mídia com as depredações do centro do Rio
de Janeiro?
Pode
parecer absurdo, mas o fluminense talvez odeie Rio de Janeiro e, de quebra,
odeie o Leblon. Talvez o que ocorreu seja sintoma de algo novo que não sei se
repetirá em breve. Talvez seja Rio de Janeiro querendo retomar o Leblon e ter
acesso ao mar. Se isto ocorresse, Rio de Janeiro transformar-se-ia em uma única
cidade, com sol, suor e sangue. Que o mesmo fogo que expulsou os moradores da
favela da Praia do Pinto arda hoje no Leblon.
L.
F. S.
Só não entendi a falta do artigo 'o' ao se referir ao Rio de Janeiro. O texto todo "em", "de", "a" ou "visitei Rio de Janeiro". De resto, um texto muito bom.
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