sábado, 20 de julho de 2013

Leblon

Moro no Brasil. Mas, infelizmente, não sou brasileiro. Por acidente nuclear, como o de Chernobil ou Fukushima, nasci em outro país. Este país chama-se Leblon. Para piorar o acidente, sou negro. Se é difícil encontrar negros em cursos de Medicina, imagine negros nascidos no Leblon, na Avenida Visconde de Albuquerque?
Fui extraditado para fora de Leblon, para lugares que não se assemelham em nada com o país paradisíaco formado por areia, cachorrinhos de madames e pequena boemia de velhos. Fui extraditado muito cedo, aos dois ou três anos de idade. Cheguei a Ribeirão Preto em meio às miríadas dos cruzeiros ou cruzados ou cruzados novos do Proálcool. Doce ilusão da Califórnia Brasileira. Descobrimos cedo que os cruzeiros ou cruzados ou cruzados novos pertenciam à pequeníssima parcela da sociedade ribeirãopretana. O grosso vivia de garapão, resto do álcool que fica no asfalto. Descobri um país diferente daquele que nunca tive lembranças, um país sem o chapéu panamá, o chinelinho da informalidade formal e a bebidinha de fim de tarde com alguma Helena.
         Concomitante à descoberta de um país diferente, perdi, como bom extraditado, o contato com a parcela de minha família que ficou em Rio de Janeiro, lugar unidimensional pertencente ao Brasil que faz fronteira com Leblon. Rio de Janeiro sofre do mesmo problema de Bolívia: não faz fronteira com o mar, perdeu-a na Guerra do Pacífico. Talvez se ressinta como um bom nacionalista boliviano ressinta-se do Chile ou um bom nacionalista paraguaio com a Tríplice Aliança.
Por outro cataclismo, redescobri recentemente parte da minha família. Reencontramo-nos neste ano, cujo encontro ocorreu no final de uma viagem longa de férias de janeiro, as quais já estavam, por incrível coincidência, agendadas e pagas. Iniciamos, minha companheira e eu, nossa viagem em São Paulo, cidade que gosto muito, fomos para Parati, e terminamos em Rio de Janeiro.
Quando chegamos a Rio de Janeiro, fomos recepcionados por parte da minha família e levados para Ipanema, onde ficamos. Uma placa na frente da pousada dizia que aquela residência havia pertencido a Tom Jobim. Não ficamos em Rio de Janeiro.
Deixamos nossas malas e fomos ver parte da minha família fluminense. Iniciamos uma pequena viagem. Passamos por um morro onde, segundo meu pai, originara-se minha família. O morro, antes denominado morro da Catacumba, virou um parque, hoje chamado parque da Catacumba. As pessoas que ali moraram haviam sido despejadas.
Senti um vazio imenso, daquele que não proporciona nenhuma perspectiva e caminho para rumar, um vazio que não lhe dá direção e sentido às coisas, uma escuridão perpétua na qual você não tem para onde ir e resolve, mecanicamente, andar sem rumo, até encontrar um terrão batido onde possa recostar-se sem possibilidade de descanso. É o que senti o que mais ou menos deve acontecer com um sujeito depois de um despejo. A impossibilidade de retomar os caminhos que você sempre caminhou, o caminho para casa, o caminho ao trabalho, o caminho ao vizinho... É verdade que me coloquei no lugar daqueles que nunca conheci porque imaginei algum grau distante de parentesco, mas o fato é que me coloquei, sem saber como até hoje fui parar na Visconde de Albuquerque em um respeitável apartamento leblonense. Meu pai parou lá primeiro, casou com minha mãe e eu nasci lá. Mas o restante das pessoas expulsas foi parar em Penha e Cidade de Deus.
O governador Negrão de Lima fez uma limpa naquela época, limpou o Morro da Catacumba e a favela da Praia do Pinto, ambos no Leblon. A favela da Praia do Pinto, contudo, assumiu contornos terroristas. Ao contrário do Morro da Catacumba, que pelo menos existia o argumento de impossibilidade de urbanização – o que, a meu ver, não justifica a expulsão dos moradores, porque, a priori, nenhum morro possui plenas condições de urbanização, sobretudo naquela época –, a favela da Praia do Pinto era uma favela-bairro, alvo de tentativas de desapropriação desde a década de 1950. Contudo, os moradores foram expulsos somente em 1969 através de um incêndio criminoso que acabou com todas as casas – alguma coincidência com São Paulo sob gestão Kassab?

E assim, com fogo e sangue, nasceu um país, um símbolo de prosperidade humana, uma terra dourada como o Eldorado de Cortez, Leblon. O sangue foi expulso pelo fogo, e formou uma sociedade linda e limpa.
Bem, mas gostaria de voltar à viagem depois do morro... parque da Catacumba. No carro de minha prima, pela primeira vez de todas as vezes que visitei Rio de Janeiro, sai da Zona Sul. Para onde fui? Fui para a Zona Norte. Sim, sai da Zona Sul. Cheguei, depois de um bom tempo, a Vicente de Carvalho. Ali conheci o restante da minha família. Voltamos lá mais vezes, inclusive em outra viagem. Viciei em ir para a Zona Norte, pegar o metrô, conversar com as pessoas sem ser vendedor, policial e taxista. Fui chegando à conclusão que no fundo sai da Zona Sul e adentrei em Rio de Janeiro.
Sempre cresci com o slogan de cidade maravilhosa na cabeça. Falava-se de Rio de Janeiro, e vinha à cabeça a tal da cidade maravilhosa. Comecei a perceber que a cidade maravilhosa também é horrorosa, e não é porque a Zona Norte é feia, como o leblonense pensa. É porque percebi que a cidade é pensada a partir da Zona Sul, dentro de um projeto ultraconservador de cidade. Existe a Zona Sul e existe o resto. Sei que pode parecer uma obviedade para quem sempre morou em Rio de Janeiro, mas eu cresci em Ribeirão Preto, vou muito a São Paulo, e acabei aprendendo a pensar a cidade a partir do centro, mais ou menos como coração e artérias. Pensar o contrário é um absurdo para mim. Obviamente isto não exclui a mesma relação entre centro e periferia, mas até então tinha a ideia única de bairros e morros.
Percebi isto vendo o metrô, ridiculamente composta por uma linha (uma linha ao lado da outra é ridícula, me desculpe, e por isso que é uma linha só mesmo tendo duas). Ele é pensado em levar o cliente da zona sul ao centro e encaixotar o passageiro do centro a zona norte. A diferença de qualidade de estações e a gambiarra de trilhos – de trem – na zona norte assustam, não por risco iminente de acidentes, mas por descaramento de distinção de tratamento.
Percebi também que as pessoas, de modo geral, não amam Rio de Janeiro. Sabe aquele outro slogan, que todos amam a cidade maravilhosa. Mentira deslavada. As pessoas que moram em Rio de Janeiro amam a cidade como o paulistano ama a cidade de São Paulo, por falta de opções. Uma coisa é trabalhar no centro ou na zona sul em algum escritório, pegar o carro ou algum táxi, ir para casa, pegar uma prancha de surf e curtir um finalzinho de tarde e pôr do sol ao cheiro de maconha e regado à cervejinha gelada. Coisa diferente (e desigual) é sair de alguma obra da zona oeste, pegar ônibus por duas horas, descer em algum ponto improvisado no meio da rua, disputar uma vaga em uma van, pegá-la na segunda tentativa, desembarcar e caminhar por vinte minutos até a sua casa. Esse cara ama Rio de Janeiro por falta de opção ou por propaganda, mais ou menos quando se tem aquelas competições ridículas de músicas que mais expressam a cidade, como Sampa e Cidade Maravilhosa, se bem que Sampa é bem diferente do ufanismo medíocre de Cidade Maravilhosa.
Os olhares dos fluminenses são tão mecânicos, cansados e distantes quanto os olhares dos paulistanos encaixotados em trens, ônibus e metrôs. A propaganda da Cidade Maravilhosa fez algo terrível para o fluminense. Transformou a ideia de Rio de Janeiro, um lugar ensolarado, lindo e perfeito, em um lugar-comum que não pertence ao verdadeiro Rio de Janeiro, transformou Rio de Janeiro em outro país, tipo um Leblon, ignorando a realidade e suas contradições. Portanto, a ideia de Rio de Janeiro é o Leblon, mas Leblon não pertence a Rio de Janeiro. Estão apartados desde que Leblon nasceu e indiretamente promoveu, com a expulsão dos moradores mediante ação estatal, a construção de parte da Zona Norte e algumas dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro. Leblon expulsou Rio de Janeiro, ou expulsou o que havia de Rio de Janeiro nele.
Um dia meu pai e eu visitamos o lugar onde nasci. Começamos a caminhar pelo bairro e uma coisa me chamou a atenção. A quantidade de militares nos nomes das ruas. Quase todas as ruas tinham nomes de coronéis, almirantes e brigadeiros. Juro que pensei que a Rua Baden Powel fosse homenagem ao músico. Percebi que era um lugar distinto, em todos os sentidos, e comecei a pensar na armadura política e repressiva que o bairro deve ter criado na ditadura militar. O excesso de militares por metro quadrado talvez explique a forma com a qual se deu a expulsão dos moradores das favelas. A armadura autoritária criada ao longo da história do Leblon talvez ajude a entender a grita contra o que a mídia leblonense chama de vandalismo e baderna nas últimas manifestações, e ajude a explicar o temor enorme que sente no momento, talvez comparável aos carros queimados após o escândalo do processamento de dados na eleição de Brizola. O fluminense não ama a cidade como o leblonense a ama, porque este a tem na cabeça nos limites da Epitácio Pessoa. O fluminense sofre com a cidade, em muitos momentos, a odeia. Isto é admissível sim, pois o fluminense hoje tem em sua cabeça a cidade real, um país esquecido pela cidade maravilhosa. Hoje o fluminense sabe que Rio de Janeiro não é Leblon e que Leblon não é Rio de Janeiro. Não acredita nos slogans simplistas. Entende e distingue as reações desproporcionais da cúpula de segurança e do governador entre o vandalismo assassino da polícia no Complexo da Maré e o vandalismo de vidros quebrados de bancos e lojas no Leblon. Alguém viu alguma reunião de emergência entre governador e cúpula de segurança após a chacina da Maré? Alguma entrevista coletiva? Sejamos mais simplistas ainda e comparemos vidro com vidro já que para alguns o vidro do Leblon é mais importante do que a vida de um favelado: alguém viu o desespero atual do governo, polícia, ministério público e mídia com as depredações do centro do Rio de Janeiro?
Pode parecer absurdo, mas o fluminense talvez odeie Rio de Janeiro e, de quebra, odeie o Leblon. Talvez o que ocorreu seja sintoma de algo novo que não sei se repetirá em breve. Talvez seja Rio de Janeiro querendo retomar o Leblon e ter acesso ao mar. Se isto ocorresse, Rio de Janeiro transformar-se-ia em uma única cidade, com sol, suor e sangue. Que o mesmo fogo que expulsou os moradores da favela da Praia do Pinto arda hoje no Leblon.


L. F. S. 

Um comentário:

  1. Só não entendi a falta do artigo 'o' ao se referir ao Rio de Janeiro. O texto todo "em", "de", "a" ou "visitei Rio de Janeiro". De resto, um texto muito bom.

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